Se ligue!
A peça Madrugada, Me Proteja! estreia dia 18 de janeiro de 2012, no Teatro Módulo, em Salvador/BA, às 20h, com ingresso no valor de R$1,00.
Te vejo lá!
O espetáculo também fará uma apresentação no Teatro XVII, no dia 08 de fevereiro de 2012, às 20h, no valor de R$1,00.
sábado, 14 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
"Cuti e sua lâmina palavra"
2012 chegou e nossa equipe está trabalhando muito para que no próximo dia 18 de janeiro todos possam assistir a um belo espetáculo.
Segue mais um artigo que fala sobre Madrugada, me Proteja!
Por Adélcio de Sousa Cruz
Segue mais um artigo que fala sobre Madrugada, me Proteja!
Por Adélcio de Sousa Cruz
Cuti e sua lâmina-palavra...
às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada
(CUTI: trecho inicial do poema “Quebranto”)
O poeta, dramaturgo Cuti é uma das vozes críticas mais combativas da literatura negra, pois é assim que ele autodenomina sua produção literária e artística. Não nos estenderemos aqui sobre essa “diferença”, deixaremos ao sabor dos excertos escolhidos, a começar pela epígrafe com versos de um dos poemas mais citados e utilizados em cursos de literatura e culturas negras e afro-brasileiras. Vale marcar a formação acadêmica do autor: é doutor em Literatura Brasileira pela UNICAMP. Como se pode notar, ele é, no mínimo, um daqueles raros artífices que maneja “sete instrumentos”... é plural em sua singularidade... não abre mão disso.
Escolhemos o subtítulo de lâmina-palavra para tentarmos expressar o corte promovido pela escrita de Cuti na pele textual da literatura canônica brasileira. Ao trazer à cena um eu-lírico que anuncia ser “o policial que me suspeita” põe abaixo a porta corta-fogo da pseudo-democracia racial: o racismo se faz tão violento que se entranha na mente daqueles que são o alvo da discriminação. Esse mote encontra-se presente na dramaturgia do escritor, no monólogo de ato único “Madrugada, Me proteja!” (CUTI, 1995), no qual a personagem Celso (rapaz negro, entre 30 e 40 anos, usando terno e gravata) se vê mergulhado numa situação das mais inusitadas para um negro/afro-brasileiro: é obrigado a dirigir o carro do patrão até o bairro de classe média alta, ou como está presente no texto, “uma rua de bairro grã-fino”, e Celso deve retornar a pé para casa. É uma história que não pode acabar em “final feliz”, mesmo a personagem Celso trazendo dentro de si “o policial que me suspeito” e avisando-o constantemente a não se meter em encrencas. É, às vezes, ironicamente esse “intruso” parece ser útil... Mas, Celso não o ouviu...
CELSO
--(Dando sinal) Táxi! . . . Táxi! . . . Táxi! . . .
O som do veículo se afasta.
CELSO
--Merda! Vaziozinho . . . Esse aí tem a mãe na zona. Corno do cacete! Só pode ser um chifrudo um cara desse. Porra! Vê uma pessoa na rua a uma hora essa . . . (Olha no relógio) Três e meia! É um canalha. Eu não estou mal arrumado nem nada?! Pô, quando o cara tá todo esculachado, aí vá lá . . . Dá pra pensar que é marginal, de noite, rua deserta . . . Mas, um crioulo na maior estica . . . ? Terno em cima, cabelo cortado, barba feita, desodorante do mais caro, grana no bolso . . . Vem um safado com um "poisé» caindo os pedaços-que o meu vale 100 daquela porcaria-vem, precisando ganhar o leite das crianças, eu dou sinal, a figura não pára!? (Indignado) E deve ser um fodido . . . Porque um cara pra pegar um carro e ficar à noite toda atrás de freguesia só pode estar na pior. Ou então é ganancioso. Trabalha num emprego de dia, dá uma cochilada à noitinha e sai à luta de novo pra ver se enriquece. Enriquece porra nenhuma! Tá mais fácil dormir no volante, dar uma porrada com o carro e pronto . . . Era uma vez! (Pausa) Esses caras . . . Vai ver que aquele viado não gosta de preto. Será que não me viu? Viu! . . . Olhou pra minha cara e virou o rosto, como quem diz: "Te vira, negrão!" É . . . Viu sim. Acho que . . . É, ele passou debaixo da luz do poste. Sou capaz de adivinhar: tem trauma de infância. Vai ver que algum crioulinho enrabou ele quando era pequeno. (Pausa. Resignado, mas com certa mágoa) Não tem nada . . . (Descontraído) Mas que vai furar o pneu na próxima esquina, vai! . . .
Barulho de outro automóvel se aproximando.
CELSO
(Dando o sinal)
Táxi! Táxi! . . .
O barulho se afasta.
O leitor e/ou o espectador da peça já percebe pela fala da personagem como diversos pré-conceitos sobre o “Outro” estão presentes na mente e no dia-a-dia de Celso. Ele parece esquecer de si mesmo e do que lhe espera... Um homem negro andando pelas ruas do bairro que não lhe é “naturalmente” destinado, desfiando pensamentos preconceituosos a respeito do taxista que o deixou a “ver navios” madrugada afora. Paradoxalmente, até tenta compreender o “receio” do chofer de praça “Dá pra pensar que é marginal, de noite, rua deserta”. Celso se irrita: “Vai ver que aquele viado não gosta de preto”, repetindo o discurso homofóbico. Logo em seguida ensaia uma “praga”, o pneu pode furar na próxima esquina. Mas nada adiantaria... Será que sua única protetora poderia ser somente a madrugada, como o título nos sugere? Parece que ela, a madrugada será apenas a testemunha das desventuras que a personagem está por vivenciar: ser assaltado, ficar sem documentos, sem lenços e sem dignidade:
Ouve-se um estampido e os passos de alguém correndo. Celso cai e fica imóvel. Pausa. Som de sirene de rádio-patrulha. Celso levanta-se em pânico. Tenta se cobrir com as mãos, mas termina optando pela fuga. Corre pelo palco. Um foco de luz agita-se na perseguição. Ouvem-se mais tiros. Quando o som da sirene aproxima-se ao máximo, Celso já está acuado, sob o foco de luz.
VOZ
(Off)
Documento! . . .
Celso, derrotado, cobre a genitália. Expressa profunda indignação. Por fim, começa a rir, num crescendo. Traduz indignação e graça. Chega à gargalhada de pura gozação, mantendo sempre as mãos sobre a genitália. Súbito, petrifica-se. Vira estátua. A luz vai amortecendo. Simultaneamente, ouve-se um hino cívico assobiado.
O desfecho da peça nos remete ao riso do “Acrobata da dor”, poema de Cruz e Sousa. O riso convulso dos emparedados entre a “linha de cor” e a de classe, mesmo que Celso seja um “crioulo na maior estica” (usa terno e gravata). Nada, nem mesmo a madrugada mal serviria de testemunha, quanto mais de proteção... O texto dramático retrata a situação inimaginável para qualquer pessoa que, como Celso, pensa estar livre da “linha de cor”, pelo simples fato de ter ultrapassado a “linha de classe”, “um crioulo na maior estica”, bem trajado e empregado. Como Fanon antevia: as máscaras caem e só nos resta os corpos...
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Moema Parente Augel faz análise - "A fala identitária: teatro afro brasileiro hoje"
Problemas relativos à ascensão social e econômica são apresentados de forma invulgar em Madrugada me proteja!, um monólogo para um homem negro. Em plena madrugada, numa cidade grande, um negro bem vestido, visivelmente em boa situação financeira, tenta em vão tomar um táxi. Os poucos que passam àquela hora avançada não param, podendo isso significar uma discriminação, experiência frequentemente vivida por negros na vida real. Sozinho na rua deserta, e assaltado por um ladrão que não é mostrado em cena, mas que o desenrolar do monólogo revela ser branco. Fato corriqueiro nas grandes cidades brasileiras, o assalto, com a diferença de que autor quis inverter os papéis: é o negro a vítima dessa vez.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Madrugada, Me Proteja!
Estreia em Salvador a nova montagem do grupo Iwá, o espetáculo teatral Madrugada, Me Proteja!, no dia 18 de janeiro de 2012, às 20h, no Teatro Módulo, com ingresso ao valor simbólico de R$1,00. A peça compõe a programação da Temporada Verão Cênico, projeto de difusão do teatro da Bahia que reúne um total de 150 apresentações, na capital e no interior, de dezembro de 2011 a fevereiro de 2012.
O texto traz a cena Celso, um homem negro que, ao acompanhar o seu chefe em casa após a saída de uma festa vive um verdadeiro dilema para conseguir pegar um táxi. O personagem será interpretado pelo ator baiano Thiago Rigaud, que vem estudando o texto desde de maio quando teve a oportunidade de conversar com o escritor, e há dois meses ele trabalha exaustivamente para representar o drama desse homem negro. Segundo o autor do texto, o doutor em letras, dramaturgo, poeta, ativista do movimento negro e paulista, Luiz Silva (Cuti), “Madrugada, Me Proteja! mostra como uma raça consegue usurpar a outra".


06:44
Madrugada, Me Proteja!
